Segunda-feira, 19 de Junho de 2006

Da inutilidade do presidente

Os visitantes habituais deste blog, conhecem as minhas posições sobre os políticos que vamos tendo, e o regime que nos (des)governa. Lembrar-se-ão que questionei a utilidade de elegermos um presidente que não tem qualquer mais valia e nos custa seis milhões de contos/ano. Vasco Pulido Valente, no Público, fez a sua avaliação dos primeiros cem dias do Sr. Silva enquanto presidente. Ora, façam o favor de ler:

«A imprensa resolveu festejar os primeiros cem dias do Presidente da República e anda por aí à procura de uma palavra ou de um gesto, que revelem o homem ou iluminem intenções profundas. Cem dias num mandato de cinco anos (ou talvez dez) não significam nada. Ainda por cima no princípio. Como se viu com Eanes, com Soares, com Sampaio - e se verá com certeza com Cavaco. Tudo isto, toda esta excitação, é um resto da campanha. A esperança que irresponsavelmente se criou não deixa agora reconhecer a irrelevância da rotina do Presidente "providencial" e o pouco, ou nenhum efeito, que ela tem no país. E, como ela de facto não tem, apareceu muita gente determinada a ver o invisível e a perceber com muita subtileza o que não sucedeu.

Afinal de contas, que fez Cavaco? Vetou a "lei da paridade" mais por uma questão de forma do que de fundo. Deu um passeio pelo interior a que chamou "roteiro da inclusão" (sem a menor consequência prática), de que ninguém se lembrará daqui a dois meses. Preparou outro "roteiro", o da "ciência", que não passa de uma peça inútil de propaganda: os cientistas, principalmente os bons cientistas, não precisam de salamaleques, precisam de sossego e dinheiro. O dr. Cavaco também readmitiu os militares nas celebrações do 10 de Junho, coisa que absurdamente entusiasmou uma direita coriácea e pavloviana, que nunca esqueceu ou esquecerá o bom velho tempo. De resto, o Presidente repreendeu o ministro da Agricultura e apoiou com solicitude a ministra da Educação. O governo não ficou abalado e ele, presumo, ficou contente.

É verdade que o dr. Cavaco disse que "não se resignava" e, no 10 de Junho, querendo partilhar essa virtude, pediu aos portugueses que não se resignassem. Infelizmente, isto põe uma questão bicuda. O Presidente da República, com a sua larga inteligência, descobriu com certeza a maneira apropriada e perfeita de não se resignar. Já o português comum hesita. Como vai ele resistir à imparável decadência da Pátria? Trabalhando mais? Cumprindo com minúcia e zelo as leis do trânsito? Renunciando ao vício e, por maioria de razão, ao crime? Ou, com um pensamento mais puro e colectivo, como recomenda o eng. Sócrates, promover uma cabala para liquidar os partidos, comprar a PT ou mesmo montar uma mercearia fina em Campo de Ourique? A perplexidade aumenta e Portugal inteiro espera que o dr. Cavaco o esclareça. Numa altura tão crítica, o silêncio de Belém é mortal.»

 

Ora, a crise actual não é nova, tem mais de cem anos, e o sr., Silva terá tantas ideias e encontrará tantas soluções para o país, como todos os seus antecessores. A imprensa vem agora celebrar os primeiros cem dias presidenciais pela simples razão de que há que vender jornais todos os dias e, lamber o rabo a quem tem algum poder, é curricularmente, sempre útil. O mandato do sr., será seguramente cheio de roteiros e preocupações e, como todos os outros, inconsequente e inútil. Os portugueses, esses continuarão a trabalhar, a pagar e a viver miseravelmente. De vez em quando, ouvirão uns insultos sobre a sua competência, ou a sua produtividade, ou frase feitas do tipo; não perguntes o que pode o país fazer por ti…, para os espicaçar. Como se faz aos bois. Continuarão a eleger outros senhores Silva que darão seguimento à obra dos anteriores. E resignar-se-ão. Porque, como o felizardo sr., Silva, não encontraram forma de arranjar três reformas, um salário elevado, e uma benesse de seis milhões de conto por ano, para governar a vida.


publicado por AC às 09:33

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6 comentários:
De magnolia a 19 de Junho de 2006 às 12:16
Eu não consigo resignar-me com os governos e com os presidentes que temos tido. Começo sim é a resignar-me com o povo que temos, que grita que quer mudança e, ano após ano, não muda nada... como dizia o outro (Brecht, se não me engano), com um povo destes, apetece mandar dissolvê-lo e eleger outro...


De TiZé a 20 de Junho de 2006 às 15:01
Que tal dar o governo de empreitada? Talvez na CEE haja empresas especializadas. E Concurso Publico para PR?


De portuguesinha a 20 de Junho de 2006 às 16:09
Por causa de o PR não ter qualquer poder é que isto está como está! O PR quase não pode mexer a mão ou o pé sem ouvir o (des)governo primeiro... A Constituição tem de ser urgentemente alterada para que o PR fique com o poder executivo como acontece em França! Façam-no se tiverem coragem e vão ver se isto não começa a melhorar quando o PR tiver mesmo mão de ferro sobre o (des)governo!


De AC a 20 de Junho de 2006 às 20:58
A ideia do TiZé não é má de todo, antes pelo contrário. Dar o governo de empreitada, sempre nos permitiria reclamar e reaver os prejuízos sempre que estes acontecessem . Concurso público para PR , na actual constituição não vale a pena. Tanto faz que seja o maior sábio ou o maior burro, a margem de manobra não permite mais que expressar ao povo as suas preocupações e cortar umas fititas de vez em quando. Noutro enquadramento constitucional, seria uma boa solução. PR por mérito próprio e livre de partidarismos. Cpts .


De Maria da Fonte a 21 de Junho de 2006 às 00:07
Pois concordo! Contratemos um bom gestor lá fora, paguemos-lhe como pagamos ao pançudo do Constâncio e outros caciques da nossa praça e, se cumprir os objectivos fixados, ainda lhe podemos dar uma quinta no Douro, mais uma praia no Algarve e para decorar a casa um galo de barcelos em ouro, do seu tamanho e peso. Ainda poupávamos muito dinheiro, injustiças e afrontas.


De tron a 28 de Junho de 2006 às 12:14
não seria mais util acabar-se com a república


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